Com certeza, os efeitos Sarneys farão vítimas nos aliados!!!
27/08/2009 09:07:10
Crise ameaça o Senado com renovação recorde
Raquel Ulhôa e Yan Boechat, de São Paulo e Brasília
Os dividendos da crise que o Senado tentou sepultar na última semana com o arquivamento das denúncias no Conselho de Ética contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-PA), levam os 30 senadores que pretendem concorrer à reeleição em 2010 (ver quadro) a reavaliar suas estratégias eleitorais. Ao contrário de outras crises recentes na Casa, desta vez o Senado não ofereceu nenhum cadáver político à opinião pública. O temor de que a fatura da sucessão de escândalos seja cobrada nas urnas encontra respaldo nos altos índices de renovação da Casa nas últimas duas eleições, também precedidas por grandes crises.
As eleições de 2010 colocarão em disputa dois terços das 81 cadeiras de um Senado desmoralizado diante dos eleitores. Nas últimas duas eleições ao Senado, poucos foram os parlamentares que conseguiram manter seus cargos. Em 2002, logo após o escândalo da violação do painel eletrônico, protagonizado pelos então senadores Antonio Carlos Magalhães - falecido em 2007 - e José Roberto Arruda (DEM-DF) - hoje governador do Distrito Federal -, 40 das 54 vagas em disputa foram ocupadas por políticos estreantes - renovação de 74% da Casa). Quatro anos depois, quando 27 vagas estavam em disputa, a renovação chegou a 75%
Desta vez, a expectativa é de que o Senado tenha um dos maiores índices de renovação de sua história. "Será recorde, maior do que os mais de 70% das últimas eleições e o desfecho dessa crise será determinante para que isso ocorra", afirma Antônio Queiroz, assessor parlamentar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap. Queiroz acredita que a reeleição dos senadores ainda dependerá de muitas variáveis, como as alianças estaduais, mas que, dessa vez, o desfecho da crise terá um papel fundamental. "A Casa ficou paralisada, o patrimonialismo muito exposto, mas o impacto não será homogêneo entre todos, dependerá muito do estilo de eleitor de cada um", afirma. Para Queiroz, o eleitor está mais exigente em relação aos candidatos e "já pagou o que tinha de dívida com os grandes caciques".
Segundo boletim do Diap, a renovação recorde do Senado, em eleição na qual estiveram em jogo dois terços das cadeiras, ocorreu em 1994: 84% das 54 vagas em disputa. Na avaliação feita pelo Diap à época, políticos profissionais, tradicionais e provincianos perderam espaço, reduzindo a pecha de "clientelista e fisiológica" da Casa.
Ao contrário das últimas crises, a atual não ofereceu à opinião pública um ajuste de contas, ainda que fugaz e frágil como aqueles que marcaram a história recente do Senado. O que se viu, de lá para cá, pode ser considerado retrocesso. Além das sucessivas crises, colabora para o desgaste o alto número de suplentes que exerceu o mandato na atual legislatura (mais de 20%, em alguns momentos), em caso de morte, renúncia ou licença do titular.
Em 2000, pela primeira vez em seus mais de 180 anos de história, a Casa cassou o mandato de um senador por quebra do decoro parlamentar. Luiz Estevão foi acusado de participar do esquema comandado pelo juiz Nicolau dos Santos Neto, que desviou cerca de R$ 170 milhões na construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.
Durante a sessão que cassou Estevão, o placar eletrônico do plenário foi violado por ACM, então presidente da Casa, e pelo então senador tucano José Roberto Arruda. As disputas internas pela presidência do Senado tragaram o hoje deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) para o turbilhão de escândalos que marcariam o Senado em 2001.
No fim, ACM, Jader e Arruda renunciaram aos mandatos para não evitar o risco de cassação. Hoje, Arruda e Estevão são governador e vice do Distrito Federal. ACM voltou ao Senado em 2002, e Jader buscou um mandato de deputado para reincorporar-se ao Congresso. Em 2007, foi a vez de Renan Calheiros, então presidente da Casa, se envolver em um escândalo por conta do pagamento de pensão de uma de suas filhas por uma construtora. Renan escapou da cassação do mandato, mas foi obrigado a renunciar à presidência.
Parlamentares excessivamente identificados com a crise, como o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), líder da bancada, é talvez o exemplo mais eloquente. Sua decisão de deixar a liderança, de acordo com ele irrevogável, foi revista menos de 24 horas depois do anúncio público, após uma "conversa franca" com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sexta-feira, dia 21, Mercadante subiu à tribuna para anunciar que desistira de renunciar à liderança.
Setores do PT de São Paulo já falam em lançar a candidatura da ex-prefeita Marta Suplicy, que, tendo a militância a seu lado, poderia tirar votos de Mercadante. Romeu Tuma (PTB-SP) é o outro senador que encerra seu mandato agora e, segundo analistas, não deve ser reeleito. Como tem candidato forte a governador, o PSDB deve eleger senador.
Mercadante, acreditam analistas e mesmo correligionários, terá uma eleição dura. Situação bem distinta de Renan, que liderou o bloco parlamentar que defendeu Sarney e ficou conhecido como Tropa de Choque. "Para um candidato que tem um eleitorado mais homogêneo e concentrado, como o Renan, os impactos da crise não serão tão grandes", diz Alberto Almeida, diretor geral do Instituto Análise, que atua na área de pesquisas de mercado e opinião pública. "Na outra ponta, Mercadante deve sofrer mais".
Almeida, no entanto, minimiza os efeitos da crise sobre a reeleição dos senadores. Para ele, as alianças regionais e, principalmente, os candidatos a governador que estarão na mesma chapa, têm um peso maior. "O Senado é uma Casa meio nebulosa para a população, boa parte do eleitorado vota no senador por conta do candidato ao governo, por isso a campanha ao Senado tem o menor custo em relação ao volume de votos obtidos", diz.
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que atuou ativamente pelo afastamento de José Sarney, concorda com Almeida, mas acredita que, desta vez, os impactos da crise serão sentidos por todos, independente das alianças. "O índice de renovação será altíssimo, será uma eleição muito dura", diz . Para ele, os problemas do Senado chegaram a um ponto de saturação inédito. "A crise atual é resultado de problemas antigos que não foram resolvidos no passado e a coisa chegou a um ponto insustentável, de descrença da população", afirma.
Depois do Planalto, Casa é a prioridade de oposição e governo
De Brasília A disputa pelas 54 vagas que irão se abrir no Senado é tratada como segunda prioridade tanto para a oposição quanto para o governo, logo depois da disputa pelo Palácio do Planalto. A base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não quer repetir o erro de ganhar o governo e não ser maioria no Senado - o que lhe causou derrotas importantes, a da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).
A oposição, por sua vez, representada pelo PSDB e pelo DEM, tem um candidato a presidente competitivo - o governador José Serra (PSDB), de São Paulo - e não quer perder a força que tem no Senado. Uma das estratégias do PSDB é priorizar as candidaturas à Casa ao fazer alianças nos Estados menores, como Amapá, Roraima e Rondônia, por exemplo.
O PSDB espera também conquistar uma vaga de senador em Estados importantes, como São Paulo - principalmente pelo fato de ter candidato forte a governador -, onde hoje há apenas governistas.
Mas, dependendo da situação local, a prioridade da oposição muda, para garantir palanque forte ao candidato a presidente. É o caso do Espírito Santo, onde o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) pode abrir mão da disputa ao Senado - considerada mais tranquila - e se lançar a governador.
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), está otimista. "No passado, o PT elegeu muitos senadores porque havia a maré Lula. Agora o candidato a presidente mais forte é tucano", diz. O mesmo fator é ressaltado pelo presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). "A expectativa é, ao menos, manter a atual bancada", diz Maia. No DEM, a prioridade é trabalhar pela reeleição de lideranças expressivas, como José Agripino (RN), Marco Maciel (PE) e Heráclito Fortes (PI).
Para Maia, a atual crise pela qual passa o Senado pode atingir o PMDB, por estar muito identificada com lideranças do partido, como José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL). O dirigente tucano Sérgio Guerra concorda que os reflexos maiores deverão ser sobre o PMDB e outros partidos que se aliaram ao presidente do Senado.
O PT ainda tentar aliar os interesses do partido nos Estados à estratégia nacional da campanha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Segundo lideranças nacionais do partido, para reforçar a candidatura de Dilma a presidente, o PT deveria fazer alianças fortes nos Estados, abrindo mão de lançar candidato a governador, quando um partido coligado tiver nome mais forte.
A estratégia é sintetizada no discurso do deputado José Genoino (PT-SP) em 3 de agosto: "Cinco governadores, dez governadores, é fichinha, é uma aspirina efervescente, diante da possibilidade de permanecermos no poder central, no comando do país", diz.
Segundo ele, "é vital" que os palanques estaduais estejam subordinados à campanha presidencial. "Por esta razão, vamos escolher nos Estados um candidato a governador do PT ou de um dos partidos aliados que melhor sirva a essa estratégia nacional. Porque o decisivo é o palanque nacional", afirmou.
Nessa linha, e diante da falta de nome forte do partido, é que o PT nacional cogitou apoiar uma eventual candidatura do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) ao governo de São Paulo. Mesmo sem definição quanto à cabeça de chapa, a direção nacional ainda defende prioridade a duas candidaturas ao Senado.
Dos 81 parlamentares que integram o Senado (três por Estado), dois terços são renovados a cada oito anos (a cada eleição intermediária ocorre a troca de um quarto dos senadores). Dos 54 que encerram os mandatos em janeiro de 2011, 16 são do PMDB - partido que tem a maior bancada (19).
O DEM, o PSDB e o PT, que têm, respectivamente, 14, 13 e 11 senadores, perderão, cada um, oito senadores de sua bancada. Os demais que saem são: quatro do PDT, três do PR, dois do PTB, dois do PRB, e um do P-SOL, um do PSB e um sem partido (Marina Silva, que deixou o PT para se filiar ao PV).
O PMDB, partido que tem a maior bancada e que também o maior número de senadores em fim de mandato, deve continuar liderando o ranking de senadores, apesar da crise atingindo suas principais lideranças. Isso porque sua estrutura partidária continua sendo a maior do país e o pragmatismo de suas lideranças leva a legenda a se compor com o candidato mais forte - seja da oposição, seja da base de Lula.
As principais lideranças do partido estão inquietas com os reflexos da crise. "O Senado tem até o final do ano para recompor sua relação com a sociedade e fazer as mudanças que a população espera. Senão, no próximo ano, vai haver cobrança em cima dos senadores que disputarem a reeleição", diz o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR).
Jucá é candidato à reeleição, mas há uma chance de concorrer ao governo do Estado. Em Roraima, o processo de construção de aliança política está parado, aguardando o julgamento do governador José de Anchieta Júnior (PSDB) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por suposto abuso de poder político em 2006. Se for absolvido, Anchieta será candidato à reeleição. Mas, se for condenado, Jucá tem chance de substituí-lo, porque foi o segundo colocado. Assim, a opção seria a reeleição.
Do lado oposto, daqueles que se expuseram na oposição a Sarney, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) - também em fim de mandato - avalia que ninguém estará livre do prejuízo eleitoral. "A crise afeta a todos sem exceção. É o Senado que está cada vez mais com a imagem completamente deteriorada", afirma.
O caso de Tasso é emblemático das dificuldades de alianças partidárias locais. Sem um nome forte do PSDB para lançar ao governo do Estado, Tasso corre o risco de entrar na disputa isolado, enfrentando o governador Cid Gomes (PSB), que tem uma aliança com PMDB e PT.
Cid, candidato à reeleição, tem compromisso de lançar o deputado federal Eunício Oliveira (PMDB) em sua chapa para o Senado. E o PT pressiona o governador para que o ministro José Pimentel (Previdência) seja candidato a senador na outra vaga. Tasso ainda enfrenta o desafio de lançar um nome ao governo, para montar palanque no Estado ao candidato do PSDB à Presidência.
O Rio Grande do Norte é um dos raros Estados em que os atuais senadores que terminam o mandato em janeiro de 2010 - José Agripino (DEM) e Garibaldi Alves (PMDB) - têm boas chances de reeleição. Os dois têm bom desempenho nas pesquisas, principalmente se estiverem na mesma chapa da senadora Rosalba Ciarlini (DEM), candidata a governadora, mas devem enfrentar a governadora Wilma de Faria (PSB).
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), primeiro-secretário do Senado, também precisa renovar seu mandato em 2010. Ele reconhece que os atuais senadores estão desgastados pela crise, mas não o Senado, como instituição. "Eu viajo muito e vejo revoltas pontuais", diz ele.
Para Heráclito, seus primeiros quatros anos de mandato foram "maravilhosos", mas a segunda metade foi marcada por crises. A única atuação foi em torno da derrubada da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Heráclito tem boas chances, mas ressalta que a eleição é a única forma de o Senado ser mudado. "Fora isso é golpe."
Gerson Camata (PMDB-ES), que encerra seu terceiro mandato consecutivo na Casa, se diz "desanimado" e não sabe se disputará a reeleição. A consequência mais grave, diz, foi a paralisação do plenário. "Peço a Deus que o eleitor reaja." (RU)
Veículo: Valor Econômico Publicado em: 27/08/2009 - 09:07
27/08/2009 09:07:10
Crise ameaça o Senado com renovação recorde
Raquel Ulhôa e Yan Boechat, de São Paulo e Brasília
Os dividendos da crise que o Senado tentou sepultar na última semana com o arquivamento das denúncias no Conselho de Ética contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-PA), levam os 30 senadores que pretendem concorrer à reeleição em 2010 (ver quadro) a reavaliar suas estratégias eleitorais. Ao contrário de outras crises recentes na Casa, desta vez o Senado não ofereceu nenhum cadáver político à opinião pública. O temor de que a fatura da sucessão de escândalos seja cobrada nas urnas encontra respaldo nos altos índices de renovação da Casa nas últimas duas eleições, também precedidas por grandes crises.
As eleições de 2010 colocarão em disputa dois terços das 81 cadeiras de um Senado desmoralizado diante dos eleitores. Nas últimas duas eleições ao Senado, poucos foram os parlamentares que conseguiram manter seus cargos. Em 2002, logo após o escândalo da violação do painel eletrônico, protagonizado pelos então senadores Antonio Carlos Magalhães - falecido em 2007 - e José Roberto Arruda (DEM-DF) - hoje governador do Distrito Federal -, 40 das 54 vagas em disputa foram ocupadas por políticos estreantes - renovação de 74% da Casa). Quatro anos depois, quando 27 vagas estavam em disputa, a renovação chegou a 75%
Desta vez, a expectativa é de que o Senado tenha um dos maiores índices de renovação de sua história. "Será recorde, maior do que os mais de 70% das últimas eleições e o desfecho dessa crise será determinante para que isso ocorra", afirma Antônio Queiroz, assessor parlamentar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap. Queiroz acredita que a reeleição dos senadores ainda dependerá de muitas variáveis, como as alianças estaduais, mas que, dessa vez, o desfecho da crise terá um papel fundamental. "A Casa ficou paralisada, o patrimonialismo muito exposto, mas o impacto não será homogêneo entre todos, dependerá muito do estilo de eleitor de cada um", afirma. Para Queiroz, o eleitor está mais exigente em relação aos candidatos e "já pagou o que tinha de dívida com os grandes caciques".
Segundo boletim do Diap, a renovação recorde do Senado, em eleição na qual estiveram em jogo dois terços das cadeiras, ocorreu em 1994: 84% das 54 vagas em disputa. Na avaliação feita pelo Diap à época, políticos profissionais, tradicionais e provincianos perderam espaço, reduzindo a pecha de "clientelista e fisiológica" da Casa.
Ao contrário das últimas crises, a atual não ofereceu à opinião pública um ajuste de contas, ainda que fugaz e frágil como aqueles que marcaram a história recente do Senado. O que se viu, de lá para cá, pode ser considerado retrocesso. Além das sucessivas crises, colabora para o desgaste o alto número de suplentes que exerceu o mandato na atual legislatura (mais de 20%, em alguns momentos), em caso de morte, renúncia ou licença do titular.
Em 2000, pela primeira vez em seus mais de 180 anos de história, a Casa cassou o mandato de um senador por quebra do decoro parlamentar. Luiz Estevão foi acusado de participar do esquema comandado pelo juiz Nicolau dos Santos Neto, que desviou cerca de R$ 170 milhões na construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.
Durante a sessão que cassou Estevão, o placar eletrônico do plenário foi violado por ACM, então presidente da Casa, e pelo então senador tucano José Roberto Arruda. As disputas internas pela presidência do Senado tragaram o hoje deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) para o turbilhão de escândalos que marcariam o Senado em 2001.
No fim, ACM, Jader e Arruda renunciaram aos mandatos para não evitar o risco de cassação. Hoje, Arruda e Estevão são governador e vice do Distrito Federal. ACM voltou ao Senado em 2002, e Jader buscou um mandato de deputado para reincorporar-se ao Congresso. Em 2007, foi a vez de Renan Calheiros, então presidente da Casa, se envolver em um escândalo por conta do pagamento de pensão de uma de suas filhas por uma construtora. Renan escapou da cassação do mandato, mas foi obrigado a renunciar à presidência.
Parlamentares excessivamente identificados com a crise, como o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), líder da bancada, é talvez o exemplo mais eloquente. Sua decisão de deixar a liderança, de acordo com ele irrevogável, foi revista menos de 24 horas depois do anúncio público, após uma "conversa franca" com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sexta-feira, dia 21, Mercadante subiu à tribuna para anunciar que desistira de renunciar à liderança.
Setores do PT de São Paulo já falam em lançar a candidatura da ex-prefeita Marta Suplicy, que, tendo a militância a seu lado, poderia tirar votos de Mercadante. Romeu Tuma (PTB-SP) é o outro senador que encerra seu mandato agora e, segundo analistas, não deve ser reeleito. Como tem candidato forte a governador, o PSDB deve eleger senador.
Mercadante, acreditam analistas e mesmo correligionários, terá uma eleição dura. Situação bem distinta de Renan, que liderou o bloco parlamentar que defendeu Sarney e ficou conhecido como Tropa de Choque. "Para um candidato que tem um eleitorado mais homogêneo e concentrado, como o Renan, os impactos da crise não serão tão grandes", diz Alberto Almeida, diretor geral do Instituto Análise, que atua na área de pesquisas de mercado e opinião pública. "Na outra ponta, Mercadante deve sofrer mais".
Almeida, no entanto, minimiza os efeitos da crise sobre a reeleição dos senadores. Para ele, as alianças regionais e, principalmente, os candidatos a governador que estarão na mesma chapa, têm um peso maior. "O Senado é uma Casa meio nebulosa para a população, boa parte do eleitorado vota no senador por conta do candidato ao governo, por isso a campanha ao Senado tem o menor custo em relação ao volume de votos obtidos", diz.
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que atuou ativamente pelo afastamento de José Sarney, concorda com Almeida, mas acredita que, desta vez, os impactos da crise serão sentidos por todos, independente das alianças. "O índice de renovação será altíssimo, será uma eleição muito dura", diz . Para ele, os problemas do Senado chegaram a um ponto de saturação inédito. "A crise atual é resultado de problemas antigos que não foram resolvidos no passado e a coisa chegou a um ponto insustentável, de descrença da população", afirma.
Depois do Planalto, Casa é a prioridade de oposição e governo
De Brasília A disputa pelas 54 vagas que irão se abrir no Senado é tratada como segunda prioridade tanto para a oposição quanto para o governo, logo depois da disputa pelo Palácio do Planalto. A base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não quer repetir o erro de ganhar o governo e não ser maioria no Senado - o que lhe causou derrotas importantes, a da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).
A oposição, por sua vez, representada pelo PSDB e pelo DEM, tem um candidato a presidente competitivo - o governador José Serra (PSDB), de São Paulo - e não quer perder a força que tem no Senado. Uma das estratégias do PSDB é priorizar as candidaturas à Casa ao fazer alianças nos Estados menores, como Amapá, Roraima e Rondônia, por exemplo.
O PSDB espera também conquistar uma vaga de senador em Estados importantes, como São Paulo - principalmente pelo fato de ter candidato forte a governador -, onde hoje há apenas governistas.
Mas, dependendo da situação local, a prioridade da oposição muda, para garantir palanque forte ao candidato a presidente. É o caso do Espírito Santo, onde o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) pode abrir mão da disputa ao Senado - considerada mais tranquila - e se lançar a governador.
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), está otimista. "No passado, o PT elegeu muitos senadores porque havia a maré Lula. Agora o candidato a presidente mais forte é tucano", diz. O mesmo fator é ressaltado pelo presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). "A expectativa é, ao menos, manter a atual bancada", diz Maia. No DEM, a prioridade é trabalhar pela reeleição de lideranças expressivas, como José Agripino (RN), Marco Maciel (PE) e Heráclito Fortes (PI).
Para Maia, a atual crise pela qual passa o Senado pode atingir o PMDB, por estar muito identificada com lideranças do partido, como José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL). O dirigente tucano Sérgio Guerra concorda que os reflexos maiores deverão ser sobre o PMDB e outros partidos que se aliaram ao presidente do Senado.
O PT ainda tentar aliar os interesses do partido nos Estados à estratégia nacional da campanha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Segundo lideranças nacionais do partido, para reforçar a candidatura de Dilma a presidente, o PT deveria fazer alianças fortes nos Estados, abrindo mão de lançar candidato a governador, quando um partido coligado tiver nome mais forte.
A estratégia é sintetizada no discurso do deputado José Genoino (PT-SP) em 3 de agosto: "Cinco governadores, dez governadores, é fichinha, é uma aspirina efervescente, diante da possibilidade de permanecermos no poder central, no comando do país", diz.
Segundo ele, "é vital" que os palanques estaduais estejam subordinados à campanha presidencial. "Por esta razão, vamos escolher nos Estados um candidato a governador do PT ou de um dos partidos aliados que melhor sirva a essa estratégia nacional. Porque o decisivo é o palanque nacional", afirmou.
Nessa linha, e diante da falta de nome forte do partido, é que o PT nacional cogitou apoiar uma eventual candidatura do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) ao governo de São Paulo. Mesmo sem definição quanto à cabeça de chapa, a direção nacional ainda defende prioridade a duas candidaturas ao Senado.
Dos 81 parlamentares que integram o Senado (três por Estado), dois terços são renovados a cada oito anos (a cada eleição intermediária ocorre a troca de um quarto dos senadores). Dos 54 que encerram os mandatos em janeiro de 2011, 16 são do PMDB - partido que tem a maior bancada (19).
O DEM, o PSDB e o PT, que têm, respectivamente, 14, 13 e 11 senadores, perderão, cada um, oito senadores de sua bancada. Os demais que saem são: quatro do PDT, três do PR, dois do PTB, dois do PRB, e um do P-SOL, um do PSB e um sem partido (Marina Silva, que deixou o PT para se filiar ao PV).
O PMDB, partido que tem a maior bancada e que também o maior número de senadores em fim de mandato, deve continuar liderando o ranking de senadores, apesar da crise atingindo suas principais lideranças. Isso porque sua estrutura partidária continua sendo a maior do país e o pragmatismo de suas lideranças leva a legenda a se compor com o candidato mais forte - seja da oposição, seja da base de Lula.
As principais lideranças do partido estão inquietas com os reflexos da crise. "O Senado tem até o final do ano para recompor sua relação com a sociedade e fazer as mudanças que a população espera. Senão, no próximo ano, vai haver cobrança em cima dos senadores que disputarem a reeleição", diz o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR).
Jucá é candidato à reeleição, mas há uma chance de concorrer ao governo do Estado. Em Roraima, o processo de construção de aliança política está parado, aguardando o julgamento do governador José de Anchieta Júnior (PSDB) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por suposto abuso de poder político em 2006. Se for absolvido, Anchieta será candidato à reeleição. Mas, se for condenado, Jucá tem chance de substituí-lo, porque foi o segundo colocado. Assim, a opção seria a reeleição.
Do lado oposto, daqueles que se expuseram na oposição a Sarney, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) - também em fim de mandato - avalia que ninguém estará livre do prejuízo eleitoral. "A crise afeta a todos sem exceção. É o Senado que está cada vez mais com a imagem completamente deteriorada", afirma.
O caso de Tasso é emblemático das dificuldades de alianças partidárias locais. Sem um nome forte do PSDB para lançar ao governo do Estado, Tasso corre o risco de entrar na disputa isolado, enfrentando o governador Cid Gomes (PSB), que tem uma aliança com PMDB e PT.
Cid, candidato à reeleição, tem compromisso de lançar o deputado federal Eunício Oliveira (PMDB) em sua chapa para o Senado. E o PT pressiona o governador para que o ministro José Pimentel (Previdência) seja candidato a senador na outra vaga. Tasso ainda enfrenta o desafio de lançar um nome ao governo, para montar palanque no Estado ao candidato do PSDB à Presidência.
O Rio Grande do Norte é um dos raros Estados em que os atuais senadores que terminam o mandato em janeiro de 2010 - José Agripino (DEM) e Garibaldi Alves (PMDB) - têm boas chances de reeleição. Os dois têm bom desempenho nas pesquisas, principalmente se estiverem na mesma chapa da senadora Rosalba Ciarlini (DEM), candidata a governadora, mas devem enfrentar a governadora Wilma de Faria (PSB).
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), primeiro-secretário do Senado, também precisa renovar seu mandato em 2010. Ele reconhece que os atuais senadores estão desgastados pela crise, mas não o Senado, como instituição. "Eu viajo muito e vejo revoltas pontuais", diz ele.
Para Heráclito, seus primeiros quatros anos de mandato foram "maravilhosos", mas a segunda metade foi marcada por crises. A única atuação foi em torno da derrubada da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Heráclito tem boas chances, mas ressalta que a eleição é a única forma de o Senado ser mudado. "Fora isso é golpe."
Gerson Camata (PMDB-ES), que encerra seu terceiro mandato consecutivo na Casa, se diz "desanimado" e não sabe se disputará a reeleição. A consequência mais grave, diz, foi a paralisação do plenário. "Peço a Deus que o eleitor reaja." (RU)
Veículo: Valor Econômico Publicado em: 27/08/2009 - 09:07

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